Entrevista com o Ariel Lambrecht do Google

Ariel Lambrecht
Olá leitores da Agência Mestre,

Há cerca de 2 anos, mais especificamente em Junho de 2008 no Google Developer Day, tive o primeiro contato com um profissional do time de qualidade do Google. Ele era nada mais, nada menos do que Pedro Dias, o português responsável por manter a qualidade no índice do Google para a língua portuguesa. A partir daí, cada vez mais vi a aproximação do Pedro a comunidade brasileira. O fórum para webmasters acontecia e arrecadava cada vez mais participantes e, como consequência disso, mais atenção do próprio Pedro. Alguns meses depois, convidei-o para uma entrevista aqui na Agência Mestre, que foi um tremendo sucesso.

Mas como sabemos, em toda boa organização, você não tem apenas 1 bom profissional, mas uma cadeia completa de profissionais que garantem que uma tarefa seja cumprida. E no time de qualidade do Google não era diferente. Pelo que consta nos registros do Linkedin, um dos grandes profissionais que aparece para nós hoje já trabalhava no time de qualidade quando tive a oportunidade de conhecer o Pedro, era ele o Ariel Lambrecht.

Pelo que me recordo, a primeira oportunidade de conversar pessoalmente com o Ariel foi no OMExpo Latino e tive excelentes impressões sobre ele. É uma pessoa que transmite tranquilidade, tenta ser imparcial e, sempre que possível, tenta tirar as nossas dúvidas da forma mais colaborativa e pública possível.

Ariel (no centro) com profissionais de Search brasileiros
Ariel (no centro) com profissionais de Search brasileiros no OMExpo Latino 2010 – foto por Raff Catalan

Creio que antes mesmo do evento eu já tinha realizado o convite para uma entrevista e o próprio Ariel tinha aceitado, e hoje, tenho o prazer de trazer a vocês um pouco dessa pessoa carismática e profissional que é o Ariel Lambrecht. Vamos a entrevista!

A Entrevista

Fábio: Olá Ariel, você poderia falar um pouco da sua carreira, de como apareceu para o Google e como conseguiu esta vaga tão desejada por diversos profissionais web?

Ariel: Olá Fabio, é um prazer poder conversar com o pessoal no Brasil, obrigado pela oportunidade!

Durante a minha graduação na USP, tive duas oportunidades importantes que me levaram aonde estou hoje: a primeira foi ter ganhado uma bolsa para estudar na Alemanha, onde acabei fazendo estágio durante 6 meses na General Motors; a segunda foi ter criado um site de relacionamento acadêmico junto com um colega de turma. Ao me formar em Engenharia, decidi morar em Londres, pois queria tentar algo novo. Não tinha emprego mas tinha adquirido experiência significativa (e paixão) em usabilidade e SEO, então comecei a procurar um trabalho nessa área. Um belo dia recebo um e-mail de um head hunter me convidando para trabalhar com a Equipe de Qualidade na sede Europeia do Google na Irlanda. Não tinha aplicado para a vaga, então a surpresa foi extrema e a felicidade indescritível.

Para o Google, não basta ter estudado em uma boa escola e ser “bom aluno”. Nós valorizamos muito o conhecimento de outras culturas, o espírito empreendedor, falar outras línguas, entre outros fatores que caracterizam o jeito “Googler” de ser.

F: Quais as maiores dificuldades de trabalhar no time de web spam?

A: Quem trabalha no Google presencia a vanguarda da tecnologia. A Internet está em constante evolução e a cada dia surgem novas técnicas que tentam manipular os resultados de pesquisa. A equipe de web spam procura estar sempre um passo à frente, estudando as novas técnicas de manipulação e hacking para proteger nosso índice dos ataques externos. É uma equipe em constante desenvolvimento, preocupada em desenvolver técnicas para combater spam em grande escala independentemente do idioma. Isso torna nosso trabalho muito interessante e dinâmico.

F: Quando eu comecei com SEO, pouco se ouvia do Google de forma oficial. Raríssimos eram os momentos que o Matt Cutts se pronunciava e hoje vemos um trabalho um pouco diferente. Por exemplo, hoje, o Matt Cutts faz um trabalho muito interessante com os seus vídeos no canal no YouTube, participa dos eventos com muitos Googlers, tais como a Maile Ohye e o Avinash. Em seguida, vemos você e o Pedro Dias participando ativamente dos últimos eventos de Search brasileiros, educando a comunidade com boas práticas. Isto dá resultado realmente? Quando foi que vocês perceberam que era uma boa estratégia educar melhor a comunidade e não esperar que ela aprendesse sozinha?

A: Educar os webmasters é uma forma eficiente de prevenir o que chamamos de spam acidental, que acontece quando um webmaster menos instruído acaba colocando um monte de palavras-chave abaixo da dobra de página pois ouviu dizer que isso melhora seu posicionamento no Google. Quando o webmaster comete esse tipo de erro, nós tentamos avisar através da Ferramentas para webmasters, ou enviando um e-mail. Errar é uma das formas de aprender, mas nós não gostamos de nos ver obrigados a retirar um site do índice do Google. Por isso, acreditamos que conscientizar os webmasters para a existência das Diretrizes de Qualidade e recomendar as boas práticas é uma das formas de comunicação mais eficientes.

F: Como está a área de SEO no Brasil e em Portugal, você acha que os nossos mercados estão evoluindo bem, ou ainda estamos muito atrasados em relação aos maiores centros, tais como Estados Unidos e Inglaterra?

A: Apesar de falarmos o mesmo idioma, vejo diferenças significativas entre a presença online brasileira e lusa. Generalizando, em Portugal, a Internet se vê como mais uma forma de marketing e faz um uso mais “profissional” da rede. É como se utilizassem a Internet como cartão de visitas da empresa. Quando todas essas empresas perceberem que podem não apenas estar presentes na Internet, mas também oferecer produtos e serviços, veremos o mercado de SEO despontar.

O brasileiro passa grande parte do seu tempo online como forma de lazer e socialização. A busca por informação, produtos e serviços vem aumentando e tende a aumentar consideravelmente nos próximos 10 anos. O Brasil está fervendo em quase todas as áreas e eu diria que o mundo de comércio online é um dos que mais vai se beneficiar com esta explosão. Em muitas partes do Brasil vemos iniciativas focadas na inclusão digital dos quase 200 milhões de brasileiros. Toda essa gente logo estará utilizando a Internet para consumir conteúdo e produtos, e não faltará trabalho para o marketing online e SEO.

F: Nos últimos dias, presenciamos a mudança de posição da Marissa Mayer para a área de Location e Local Search, que na minha visão, mostra um certo interesse do Google pela respectiva área e pelas crescentes necessidades de informações cada vez mais pessoais. Mas um problema que assola a comunidade de Local Search é o spam nas chamadas “business listings”, onde diversas empresas se aproveitam para criar títulos com keyword stuffing ou ainda criar “fake reviews” apenas para ganhar um melhor posicionamento no 7-pack. Como vocês vêem este problema no Brasil? É algo para se combater no ano de 2011 ou já existe uma preocupação desde já?

A: Combater spam nos serviços do Google sempre será prioridade. Nosso objetivo é prevenir spam de forma algorítmica sempre que for possível, e tomar ações manuais sempre que alguma coisa passa desapercebida.

Assim como as Diretrizes de Qualidade para Webmasters, o Google também possui as Diretrizes de Qualidade para Pesquisa Local. Recomendo a leitura de ambos.

Existem algumas formas para denunciar spam nos resultados locais: Se estiver vendo o resultado na pesquisa universal, clique no mapa para ir para o Google Maps com os resultados listados. Em seguida clique na seta ao lado do resultado para “informar um problema”. Você pode inclusive pedir para receber um e-mail quando o problema for verificado.

Também é possível utilizar um formulário para denunciar spam no Google Maps (em inglês) ou participar do Fórum de Ajuda do Google Maps

F: Eu acredito que uma das perguntas que tenho mais recebido ultimamente é o que realmente acontece quando alguém submete um problema de spam no índice do Google. Você poderia comentar melhor o assunto? O site é punido diretamente? Vocês realmente revisam cada uma das submissões? Ou vocês analisam apenas uma parte delas?

A: Cada uma das denúncias de spam vindas de um usuário através do link de denúncia de spam é analisada por alguém dentro do Google. Na maioria das vezes, preferimos atacar o problema de forma algorítmica, cuidando da causa do problema ao invés de penalizar sites específicos. Mas se o site em questão estiver infringindo as Diretrizes de Qualidade e o algoritmo de detecção não estiver atuando como deveria, o site pode ser penalizado manualmente. O que pode acontecer muitas vezes é que a técnica utilizada para tentar a manipulação já esta sendo suprimida pelo algoritmo, mas mesmo assim, o site esta bem posicionado por ser um site relevante. Vejo isso acontecer muitas vezes com sites que compram links. O algoritmo desconsidera os links comprados, mas os fatores que influenciam o seu posicionamento e reputação podem ser de outra natureza.

Resumindo: Toda denuncia de spam é útil e é analisada, mas nem toda denúncia causa uma penalização perceptível e imediata.

Algumas pessoas tem nos enviado denúncias através do Twitter. As denúncias que recebemos de forma direta não são tratadas com preferência e acabam sendo redirecionadas para os mesmos processos de revisão que as denúncias feitas pelo formulário oficial.

F: Em termos de estudos e pesquisas, o que você recomendaria para quem está começando com Search ou quer aprimorar ainda mais os seus conhecimentos? O que você, Ariel, estuda diariamente? Existe um grupo de websites que você costuma frequentar para buscar mais informação?

A: Antes de entrar para o Google, eu aprendi muito sobre SEO em sites estrangeiros. Eu tentava colocar em prática tudo o que lia sobre otimização e usabilidade. Acho que a melhor forma de aprender é errando e acertando com seu próprio site. Não acredite em tudo o que lê. Teste, verifique. Hoje em dia existe muito conteúdo em português para quem quer aprender. Posso citar o guia de SEO para iniciantes e o Fórum de Ajuda para Webmasters. Valorizo bastante a iniciativa da comunidade de SEO brasileira  em produzir conteúdo de qualidade em português. No Google, tenho que lidar com técnicas que ainda não foram documentadas. O processo de aprendizagem acontece através da observação do que esta acontecendo de novo na web, as novas técnicas utilizadas por spammers.

F: Existem diversas afirmações de profissionais da área que reportam a ocorrência de penalizações isoladas, atestando ou sugerindo, que tenha sido uma ação manual de um profissional do Google (e não um algoritmo em ação) ao identificar uma violação de suas diretrizes e consequente aplicação de uma penalização (entre as diversas já reportadas, os sites perdem sumariamente -30, -50 e outros números em posições nas SERPs). Isso pode realmente acontecer? Se sim, o Google tem o cuidado ou a atenção de reportar o problema (ou existência do problema e fica a cargo do webmaster identificá-lo) antes de ativar a penalização do website? Se sim, são casos particulares (quais?) ou sempre funciona desta forma (identificação manual, report ao webmaster, espera e decisão final)?

A: Nos casos em que o algoritmo por alguma razão não consegue isolar o problema, o Google realmente pode aplicar uma penalização manual. Em alguns casos de “spam acidental”, o webmaster é comunicado através de um e-mail ou na Ferramentas para webmasters. Também comunicamos caso o webmaster tenha sido alvo de hacking ou seu site possua malware. Mas para evitar manipulações, não comunicamos todas as penalizações aplicadas.

Para aumentar as chances de receber um aviso caso seu site tenha problemas, recomendo estar cadastrado na Ferramentas para webmasters e ativar o encaminhamento de e-mail. Mas mesmo não estando cadastrado, nós tentamos notificar o webmaster através do e-mail presente no Whois ou nas informações de contato no site. Tenha sempre sua informações no Whois atualizada com um endereço de e-mail ativo. Nós também tentamos enviar e-mails para endereços padrão do tipo contato@exemplo.com.br assim como info@, suporte@ e webmaster@.

Se você desconfiar que sei site foi penalizado (manual ou algoritmicamente), releia as Diretrizes de Qualidade, corrija o problema e faça um pedido de reconsideração. Se tiver alguma dúvida, procure ajuda no Fórum de Ajuda para Webmasters.

F: Através do trabalho que desenvolvemos com o Curso de SEO, o blog da Agência Mestre e contatos que recebemos de diversos webmasters, vemos que muitos deles se referem ao problema de não aparecer em resultados de busca por causa de conteúdo duplicado como uma penalização. Este seria o termo correto a ser usado em todo caso de “exclusão” de uma SERP por duplicidade de conteúdo? Que orientação você tem a passar para webmasters que, mesmo sendo o desenvolvedor do conteúdo, não aparece em uma busca por este conteúdo por ser identificado pelo Google como duplicado? Por fim, quais e/ou que tipo de informações o Google verifica para escolher um de dois (ou mais) conteúdos iguais?

A: Primeiramente precisamos definir o que o Google considera como conteúdo duplicado. Conteúdo duplicado é, geralmente, um fenômeno ocasionado sem intenção, onde o mesmo conteúdo, ou grande parte do conteúdo, está presente em 2 ou mais URLs distintas dentro de mesmo site ou em múltiplos domínios. Muitos sites possuem conteúdo duplicado e muitas empresas utilizam conteúdo de terceiros agregando valor.  Excluindo alguns casos muito raros, isso não gera penalização. Quando identificamos diversas URLs com conteúdo similar escolhemos a URL que consideramos mais relevante para mostrar ao usuário. O que acontece é que o Google pode escolher uma versão que não é de sua preferência. Por exemplo, se você tem uma página versão web e versão para impressão, muito provavelmente você não quer que seu usuário encontre a versão para impressão. Para evitar esse tipo de equivoco por parte do mecanismo de pesquisa, você pode utilizar um redirecionamento 301, ou a tag rel=”canonical” se o redirecionamento 301 não for possível.

Algo mais grave é duplicar deliberadamente um conteúdo com o intuito de manipular o ranking do Google. Por exemplo, se o seu modelo de negócio se baseia em simplesmente copiar e monetizar o conteúdo de outros, você pode correr o risco de ser penalizado. Para evitar isso, forneça conteúdo único e útil ao usuário.

Tenho visto uma tendência não muito recomendada de alguns bloggers em escrever um conteúdo único, porém de muito baixa qualidade, ou “parafrasear” artigos sem adicionar valor ao conteúdo, visando unicamente rankear bem nos mecanismos de pesquisa. O algoritmo do Google esta aprendendo a identificar esse tipo de conteúdo.

Se você for produtor de conteúdo e estiver se sentindo lesado, existem formas de lidar com o problema: primeiramente, copiar conteúdo sem autorização é ilegal. Converse com o dono do site em questão e se achar apropriado, considere tomar ações legais ou envie uma solicitação de DMCA para declarar propriedade sobre o conteúdo e solicitar que o outro site seja removido do índice do Google. Se o site estiver infringindo as Diretrizes de Qualidade, reporte como spam.

F: Como você vê, pessoalmente falando e não na voz do Google, a evolução do fórum de ajuda do Google? No início, o grande contribuidor foi o Flávio Raimundo, em seguida, o Cassiano Travareli se juntou ao Flávio e hoje vemos, não 1, nem 2, mas diversos profissionais preocupados em fornecer ajuda a outros simplesmente pelo fato de ajudar. O que você acha que motiva a comunidade a compartilhar o conhecimento em um fórum do próprio Google?

A: Acredito que a sensação de neutralidade que permeia no Fórum para Webmasters em português é umas das principais forças que levam o fórum adiante. É muito gratificante a sensação de poder ajudar as pessoas a resolver problemas de indexação e rastreamento em seus sites. Acredito ser essa a principal razão que leva a comunidade de webmasters a continuar participando do fórum e ajudando uns aos outros.

F: Ainda falando do fórum de ajuda para webmasters, em muitos casos, vemos perfis criados no dia da pergunta, sem conexão nenhuma com dados ou fotos, e com uma dúvida específica e em vários casos bem avançadas, ou seja, estou falando dos perfis falsos. Como você vê esta prática acontecendo bem debaixo dos olhos do Google? Existe uma preocupação de vocês para dar mais confiança e autenticidade para o fórum?

A: Perfis falsos com o intuito de fazer spam são reportados e banidos rapidamente. Se o perfil é criado para perguntar algo que é relevante para a comunidade de webmaster e a discussão pode ajudar outros usuários, acho que é valido. Problemas específicos também são bem-vindos. Acredito que algumas pessoas criem perfis incompletos para evitar serem identificados. Não vejo problemas, desde que não façam propagandas ou desrespeitem a comunidade.

F: Para fechar a entrevista, com uma palavra, como você definiria o seu trabalho no Google?

A: Desafiante

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3 Comentários para “Entrevista com o Ariel Lambrecht do Google”

  1. Rodrigo

    Grande entrevista Fábio!
    Muito agregador para todos nós!!!
    O Ariel parece realmente ser uma grande pessoa, além de ser um mega profissional!

    Parabéns!!

    Responder
  2. Eduardo Gasparetto

    Ótima entrevista. Ouvia sempre falar muito do ariel pelo searchcast, e agora pude aprender um pouco mais sobre este representante do google.
    É bom saber que temos um cara bacana olhando pelo google em portugues.

    Responder
  3. Natascha

    Ótima entrevista!!
    poxa.. conheci o Ariel em 1997, na escola.. e fico orgulhosa e feliz em saber que ele está bem e trabalhando em algo que lhe dá prazer!
    =)

    Responder

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